Onde Começa O que Sempre Acaba – Resenha

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Por que não acreditar na profusão de ocasos, que reitera ao mundo o quão triviais são as mudanças? O valor dos ciclos é duvidoso, e também dadivoso aos olhos mais esperançosos. Efêmero, além do sobressaltado de extinguir-se, é o encerrado por um mundo que já desejou cerrar suas portas. O que se escreve, contudo, encontrou sua perenidade.
Sobre um bordado que se costura entre o contemporâneo dos hábitos e o atemporal das afeições, Luciana Setubal escolhe o equilíbrio, e tece histórias que jogam luz sobre a efemeridade. Nesse bailar sensível de instintos e desejos, seus contos são um retrato cuidadoso de nossos tempos incertos e da fluidez de nossas emoções.
Nos testemunhos que permeiam Onde Começa o que Sempre Acaba, a realidade se exibe líquida, mas não se desidrata ao transladar-se em literatura. Se OCOQSA abre as cortinas da igualdade de gênero em um mundo repleto de Armandos, Instagramar manifesta um relato vívido do amor na modernidade. Ao refratar o mundo em palavras, Setubal mostra que é possível encontrar lirismo na ansiedade das redes sociais, nas desilusões em cascata e mesmo nas mazelas do poliamor.
Em Onde começa o que sempre acaba, a autora se desvencilha delicadamente do jugo das estruturas clássicas, dando a impressão de traduzir um ditado interior. No fluxo da linguagem livre, não lhe falta espaço para intrépidos períodos que, ao evocarem a prolixidade das emoções, propõem um diálogo desafiante com a contemporaneidade, em mente e espírito.

 

João Paula Santos Pires

Amnésia

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O dia calçava os chinelos para sair da cama quando encontro a senhorinha de serviços gerais.

– Nossa! Vai trabalhar tão cedo hoje?

– Não, vou na terapia.

– E cê faz terapia pra quê, filha? Pra esquecer alguém?

– Nada, Dona Terezinha, faço pra lembrar de mim mesma.

 

Imagem: @piermario

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Ao passar pela portaria a atenção pesca algo: o porteiro lê robusto livro. O que seria? Bíblia, Código da Vinci, O Menino do Pijama Listrado? O olho se alonga. Irmãos Karamazóv, Dostoiévski. Uau! A pergunta óbvia entre amantes de livros: tá gostando? Afirma, sim, mostra o pouco que falta para acabar. Questiono, e me sinto IBGE analisando hábitos culturais do brasileiro: como faz para ler, retira, compra, pega livros emprestados? Carinho e orgulho na mão que alisa a capa antes de mandar bala na resposta: “Esse eu comprei, mas a primeira vez que eu li era emprestado.” Desço as escadas com o peso da ignorância ao quadrado nos ombros. Leitores disputam em silêncio a corrida de quem leu mais ou melhor, e dos russos eu só dominava A Dama do Cachorrinho, Tchékhov em gotas. Vergonha imensa, ainda mais eu querendo ganhar a vida como amante da escrita. Chego à rua, e o sol perdido em camadas de cinza ressurge, aquecendo a grandeza do acontecido: havia perdido uma etapa da maratona pelo cálice sagrado da alta literatura, mas o porteiro lia, e lia Dostoiévski. A manhã estava ganha. Imagem: Mathijs Delva

Obsidiana

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“Beleza é escravidão”, murmurava, ritmo de prece. Por isso tantas escovas, cabelo, roupa, de sapatos, até para unhas. O conjunto verde-grama foi presente do irmão, o jogo anterior gasto, de João a ideia de escolher um novo. Lembrava-se da loja dispersando a atenção, overdose de cor, cheiro, tamanhos, quantos artigos de toucador ali? “Combinam com seus olhos”, disse a vendedora indicando o conjunto, piscando o olho, pedra verde intensa, cílios em quilômetro. O elogio exigiu desvio de olhar, encontrou ornamentos no verso dos instrumentos de trabalho, filigranas em marrom e dourado. Lembravam surpreendentes pestanas, boca em bocejo, a cor de selva banhando tudo. Escolheu.

A escravidão começava cedo: 100 escovadelas nos fios loiros ao acordar. Saias, casacos, blusas e calças vinham em seguida. 39 peças, 20 escovadas cada. Os sapatos eram terceira parte do ritual, três pares pretos, o creme para couro liso sempre por perto. Aplicado, sumia nas 32 escovadas, pé direito primeiro – o correto devia ser privilegiado -, depois esquerdo. As unhas indicavam fim próximo, seis idas e vindas da pequena escova cada. O espelho finalizava o processo com elogio: “não há ninguém mais linda que você, Elena”. Ela recomeçava o vai-e-vem, cabelos primeiro, roupas, sapatos, unhas, incontáveis vezes, até o relógio amarelo sacudir a meia-noite.

O livro quase deixou de lado, mas foi outro presente do irmão. Vinte anos mais velho, queria a irmã minimamente alfabetizada. Era preciso escrever as cartas, quem toparia o serviço? Mulheres, caquéticas ou em flor da juventude, ricas ou pobres, esconjuradas pelo Diabo ou não, todas caiam, a letra salivando desejo, amor, afeição. Perdiam dinheiro, confiança nos homens, a honra, sempre sangra a violação. O trecho rasgado de uma das cartas ia junto, precisava manter perto a aspereza do papel, os anos de escrava.

O cãozinho? Necessário lembrar Kiko, o vizinho fazendo avançar o bicho em João, há quantos anos esperava por isso? A pequena vassoura foi junto, desdobrava-se em função dupla: de dia varria cabelos e pelos que caiam das roupas, à noite entranhava-se, olhos verde-obsidianas tingindo seu pensamento a cada movimento, o cabo curto desejando visitar o útero. Último presente do irmão. A mala estava pronta.

Texto inspirado no projeto fotográfico Willard Asylum Suitcases, de Jon Crispin, com foto do mesmo.

Semanada – Tempo de delicadeza

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Seda – Palavras deslizam suaves. A aventura mostra-se aos poucos, lenta dobradura. Um amor escrito à conta gotas. Haverá livro tão impregnante, revelador de Alessandro Baricco?

Moonrise Kingdom – Ah, a pré-adolescência do primeiro amor. E quando o primeiro amor se concretiza, vira poesia visual, em linguagem e ritmo típicos de Wes Anderson? Ah, meu coração se derrete.

Willard Asylum Suitcases – Um asilo para doentes mentais fecha. As malas de 400 ex-pacientes, a maioria falecidos na própria instituição, viram museu. Que é traduzido em arte pelo fotógrafo Jon Crispin. E que viram minicontos a partir de agora.

This is The End?

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“Despedidas não duram muito, não é Clarissa?” E Clarissa abriu a janela, o pesado do céu desabando em seus olhos. Não havia destas frases em sua vida, ela que nunca se despedira de alguém, como se fazia isso? O silêncio piscou miúdo na garganta, embolou com uma coisa forte dentro dela. Clarissa se virou, encarou o cachorro – que esperava a resposta das respostas, afinal humanos sabem em excesso  – “não sei, talvez lembranças permaneçam mais”. E pulou a janela, com a mansidão típica que define tanto os decididos quanto os conformados. E claro, também os que acreditam que um fim nunca é o fim.

(último texto publicado no Coletivo Claraboia)

Imagem: SpaceShoe

Três delícias

1 –  Eliane Brum acerta nas frases, no jogo dos personagens, nas máximas. Relação mãe & filha, osso duro de roer, às vezes parece que só osso. Acerta meu olho e o coração, o primeiro em lágrimas, o segundo em desassossego. Uma/Duas.

2 – Melancólico e doce caminho da infância à adolescência. Como um fim de tarde assistindo ao pôr-do-sol. Ou da beleza de saber voar sem saber que se tem asas. – Bollyhood

3 – A velhice como fenômeno cultural e econômico. A terceira idade como o futuro ali, logo dobrando a esquina. Preparem-se, planejem-se, perdoem-se. “Você não pode virar um velho ranzinza, porque a velhice é a época em que se precisa das pessoas, e as pessoas fogem de gente assim”. – Café Filosófico, série sobre a terceira idade